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O que a Gerência de Produtos Não É!

Descobri que muitas empresas continuam presas em modelos antiquados e mal sucedidos de Gerência de Produtos, e nem sempre percebem quão importante é a definição de papéis para construir times efetivos e produtos de sucesso.

Em alguns artigos tentei explicar de que se trata o papel do Gerente de Produtos, mas, neste artigo, abordarei a partir de outro ângulo, e tentarei enfatizar o que esta função não é. Espero que ao enfatizar estes mal-entendidos ajude as empresas a perceber onde elas têm problemas, e, que, esperançosamente, elas irão rever como definem esta função.

- Gerência de Produtos não é a definição de um business case

Alguns Gerentes de Produtos acreditam que sua função é definir o business case que justifique porque o produto deve ser criado. O business case é importante? Claro. Principalmente porque a gerência executiva irá utilizá-lo para tomar decisões sobre onde investir. Mas isto não faz nada para contribuir para a criação de fato do produto. Em muitas organizações o Gerente de Produtos compila o business case, ou pelo menos contribui em sua criação, o que está correto, mas, não confunda isto com o trabalho do Gerente de Produtos.

- Gerência de Produtos não é a definição dos requisitos de mercado

Em muitas empresas acredita-se que o Gerente de Produtos deva definir os requisitos de mercado, e os Engenheiros devem desenvolver o produto para atender estes requisitos. O Gerente de Produtos deve criar um MRD (Documento de Requisitos de Mercado) que enumera aquilo que ele acha que o mercado esta buscando, e então, a definição de fato do produto que atende estes requisitos é um exercício para o leitor deste documento (normalmente a área de Engenharia).

Há na verdade dois problemas com isso.

O primeiro é a falácia dos assim chamados “requisitos de mercado”. Mercados não têm requisitos. As pessoas é que têm. E a pessoa que irá de fato definir o produto precisa falar com estas pessoas diretamente. Se o engenheiro é aquele que definirá o produto, então é ele que está fazendo o papel de Gerente de Produtos, e sua única esperança deve ser que, como Gerente de Produtos, ele entenda que precisa de tempo face a face com usuários e clientes reais.

O segundo problema é a falácia de que os requisitos de mercado são separados dos requisitos do produto. Toda a idéia é descobrir uma combinação de produto-mercado e isso requer um entendimento profundo, tanto das necessidades de mercado quando das capacidades tecnológicas. É durante o processo de descoberta que você identifica os requisitos de mercado reais e as soluções técnicas que irão endereçar estes requisitos de forma adequada.

- Gerência de Produtos não é a coleta de requisitos

Muitas empresas, especialmente as que têm uma força de vendas própria, têm um modelo em que o trabalho do Gerente de Produtos é reunir os requisitos dos clientes ou clientes em potencial, documentá-los para a Engenharia e então se assegurar de que estes requisitos são entregues nas datas que o pessoal de vendas prometeu aos seus clientes.

Isto não é Gerência de Produtos. Isto é gerência de projetos para desenvolvimento de soluções de software customizado. Verdadeiras empresas de produtos sabem que os clientes têm problemas que precisam ser atacados, mas ainda assim eles não estão em posição de ditar os requisitos de produto. Em outras palavras, você não pode cometer o erro de confundir um requisito de cliente com um requisito de produto.

Fique atento para qualquer coisa que encoraje esta mentalidade de ‘captura de requisitos’ ou ‘gerência de requisitos’. É um caminho certo para o fracasso de produtos.

- Gerência de Produtos não é gerência de projetos

Em algumas empresas, o grupo de gerência de produtos nasceu da área de gestão de projetos/programas da empresa, especialmente quando a empresa tem uma herança de TI ou de desenvolvimento de software customizado. Neste modelo, o Gerente de Produtos é considerado a pessoa que coleta e documenta os requisitos, e gerencia o projeto desde a concepção até a entrega. Mas o processo de descoberta não é simplesmente uma tarefa num plano de projeto. Ele é seu próprio processo, que é muito diferente do processo de desenvolvimento do produto. Além disso, você raramente encontrará pessoas que gostam das duas coisas, gerência de produtos (descoberta) e gerência de projetos (entrega), já que a natureza das duas pessoas é bem diferente.

- Gerência de Produtos não é marketing de produtos

Finalmente, gerência de produtos não tem a ver com preço, promoções, posicionamento e mensagem, ou atividades de lançamento de produto. Nem com marketing online ou estratégias de aquisição de clientes ou programas de marketing. Estas são todas atividades críticas e importantes, e o Gerente de Produtos irá prover dados para muitas destas atividades, mas não as confunda com gerência de produtos. Estas são atividades de marketing de produtos, e, para todos exceto os produtos menores, você precisará de uma pessoa capacitada em marketing dedicada. Embora a empresa possa ficar tentada em pedir ao Gerente de Produtos para que cubra estas responsabilidades também, perceba que a natureza destas atividades de marketing são dramaticamente diferentes das atividades de gerência de produtos, e é muito difícil de se encontrar alguém que seja capacitado nas duas funções.

Em contraste ao que foi apresentado acima, o Gerente de Produtos é responsável por descobrir um produto que seja útil, “usável” e factível. Se ele puder fazê-lo, terá cumprido seu trabalho. Se não puder, não vale a pena despender tempo e dinheiro para desenvolver e lançar o produto.

Se sua empresa comete algum dos erros acima, repasse esta nota para seus executivos. Comente que talvez você pudesse ajustar o papel em seu próximo produto para ver o que acontece. Acredito que você descobrirá que se puder focar na descoberta, terá uma chance de mostrar à sua empresa o que é de fato se um Gerente de Produtos.

Entregue valor para o cliente, não funcionalidades do produto

Se você quer ser um mau Gerente de Produtos, tente entregar tantas funcionalidades quanto for possível. Quanto mais funcionalidades você tiver, mais provável de você ter as coisas que qualquer cliente individualmente se preocupa. Clientes esperam que produtos continuem melhorando, e a forma de um produto melhorar é através da inclusão de novas funcionalidades. Além disso, incluir um monte de pequenas funcionalidades será tão bom, se não melhor, que adicionar aquela grande melhoria. Quanto mais, melhor, certo?

Se você quer ser um bom Gerente de Produtos, tente entregar a menor quantidade de funcionalidades que proverá o máximo valor para o cliente. Clientes compram produtos por causa das necessidades que o produto preenche e dos problemas que o produto resolve. As funcionalidades por si só são inúteis — elas existem para preencher uma necessidade. Os clientes acharão valor em funcionalidades caso estas satisfaçam uma necessidade e se o ato de preencher esta necessidade é algo de valor para o cliente.

Infelizmente, Gerentes de Produto geralmente abordam este problema da maneira errada. Eles criam uma longa lista de funcionalidades desejadas e então obtêm estimativas da Engenharia a respeito de quanto esforço cada uma delas requer. As funcionalidades mais importantes podem consumir a maior parte do esforço, então, na esperança de ter mais funcionalidades mais rapidamente, um Gerente de Produtos irá deixar passar as melhorias do produto mais demoradas de serem feitas – e geralmente as mais valiosas para os clientes. Em vez de algumas poucas funcionalidades valiosas, o produto terá uma quantidade maior de funcionalidades de menor importância.

Mais do que simplesmente contar a quantidade de funcionalidades ou a quantidade de melhorias, os Gerentes de Produto devem avaliar a relação entre o esforço de desenvolvimento e o foco em obter o maior valor para o cliente com uma dada quantidade de esforço. Gerência de Produtos não é entregar o máximo – é entregar o mínimo! Como Marty Cagan, do Silicon Valley Product group escreve em seu artigo Great Products by Design:

O trabalho do Gerente de Produtos é identificar o produto mínimo possível que atende os objetivos e provê a experiência de usuário desejada – minimizando o time to market, e a complexidade de implementação e para o usuário.

Em vez de incluir mais funcionalidades, os Gerentes de Produto devem garantir que eles tenham as funcionalidades certas em seu produto e considerar remover funcionalidades quando for apropriado. Ao criar um produto que prove mais valor pela menor quantidade de esforço, um Gerente de Produtos produzirá um produto mais fácil de vender, dar suporte, manter e, em última instância, que entrega mais valor para os clientes e para a organização.

Esta é uma tradução do conteúdo escrito por Jeff Lash (http://www.jefflash.com/) no How To Be A Good Product Manager (http://www.goodproductmanager.com/)

Dilbert: Engenheiros…

Por que a inovação é difícil em empresas grandes?

Encontrei um post interessante sobre este tópico, e, devo dizer, realmente concordo com o que o autor, Kareem, escreve. Ele menciona três razões principais para o fracasso que costuma ser a inovação em grandes empresas:

  1. As grandes empresas devem proteger seu negócio atual
  2. Muita burocracia e stakeholders demais no processo
  3. Elas não provêem o incentivo financeiro adequado para a inovação

Estou certo de que a maioria de nós que já trabalhou em empresas maiores passou pelos dois primeiros itens. Também já vi muito material escrito sobre estes dois primeiros pontos na cultura das grandes empresas, práticas de gestão, etc. As pessoas hoje citam a Apple como grande exemplo de uma empresa que descobriu como lidar com estes dois pontos.

Quero aproveitar o resto deste post para falar do terceiro tópico, que acho que tem importância crítica e sobre o qual ainda não vi muito material.

Em qualquer grupo de funcionários haverá sempre um pequeno subgrupo que pode ser identificado como empreendedor e inovador. Muitos deles provavelmente vêm das equipes de Gerência de Produtos e Engenharia. E a maior parte destas pessoas é esperta o suficiente para entender o valor que podem trazer para a empresa, bem como para eles próprios caso possam entregar um produto bem sucedido para o mercado.

O problema é que, numa típica empresa grande, a proposição de retorno sobre o investimento para se levar uma idéia para o mercado é totalmente tendenciosa a favor da empresa. Kareem explica isso bem em seu artigo:

As pessoas são incrivelmente rápidas em aprender qual comportamento é premiado pelo sistema. Se você quiser inovar, existem duas opções: permanecer num sistema que paga um salário anual e um bônus relativamente baixo por um produto maravilhoso. Ou, se arriscar, e desenvolver um produto que terá um bônus valioso, mas que até alcançá-lo você viverá de suas economias.

Agora imagine uma grande empresa que possui uma grande quantia de dinheiro para aquisições. Esta quantia pode ser de centenas de milhões de dólares, ou até mais. A empresa quer fazer aquisições que lhe ajudem a incrementar sua posição atual no mercado ou que a levem para novos mercados (provavelmente mercados adjacentes).

Há inúmeras startups inovadoras por aí, trabalhando em novos produtos que são potenciais alvos de aquisições. Agora, uma vez que a empresa está avaliando o mercado e alvos potenciais e gastando dinheiro alto para fazer as aquisições destas empresas (possivelmente deixando os fundadores destas empresas milhonários), o que pensam os inovadores dentro da empresa?

Eles pensam “Ei, como eu ganho um pouco disso?”.

Agora imagine que a empresa tenha separado, digamos de 5% a 10% do montante disponível para aquisições e tenha criado um fundo que invista, e, em caso de sucesso, recompense produtos inovadores criados por seus funcionários. A estrutura disto deve ser trabalhada cuidadosamente para garantir a transparência do processo de seleção de projetos a serem financiados e clareza na maneira de medir e recompensar o sucesso, mas, em teoria, isto é possível.

Consigo pensar em pelo menos um modelo, em que um grupo quase-independente revisaria as idéias e decidiria como oferecer um valor equivalente ao investimento de um angel investor para que o projeto chegue num ponto em que possa ser avaliado em detalhes. Este modelo não seria diferente do que alguém enfrentaria ao levar sua idéia a um Angel ou Venture Capital para financiamento.

Independente da forma com que isso seja feito, poderia haver vantagens significativas para a empresa ao fazer isso.

  • Deixa uma mensagem muito clara de que seus funcionários podem ser significativamente recompensados caso contribuam para o sucesso da empresa
  • Reduz significativamente a fuga de capacidade intelectual da empresa, impedindo que as pessoas mais inovadoras saiam para fundar suas próprias empresas
  • Proporciona uma opção de custo menor para a empresa do que fazer aquisições de produtos inovadores no mercado.

O retorno para os funcionários que seguem este caminho seria menor do que o que eles obteriam caso fossem arriscar por sua conta, mas por outro lado, o risco que eles enfrentariam também seria bem menor. Eles poderiam alavancar recursos da empresa, bem como a base de clientes já existente. Embora alguns inovadores fanáticos podem não gostar da situação, estou certo de que a maioria iria gostar.

Imagine uma incubadora, financiada por uma grande empresa (e possivelmente por outros investidores externos também) que oferecesse um ambiente para estes empreendimentos se desenvolverem, crescerem e idealmente se tornarem bem sucedidos. Se a empresa desejar comprar o empreendimento, ela poderá fazer isso de forma relativamente simples dado seu envolvimento com o projeto. Se não quiser comprar o projeto, o mercado pode decidir seu valor assim como qualquer outro fundo de venture capital, e a empresa pode até recuperar parte de seu investimento (ou até mais).

O que você acha disso? É possível que grandes empresas desenvolvam incubadoras para que seus próprios funcionários criem empresas e produtos inovadores? Ou há outras questões e complexidades que impediriam o sucesso deste conceito?