No ultimo artigo falei sobre o papel dos arquitetos e engenheiros no processo de descoberta do produto. Expliquei que ótimos produtos surgem da colaboração entre o Gerente de Produtos, o designer de experiência do usuário e o arquiteto/engenheiro.
Normalmente sou abordado por engenheiros perguntando o que é necessário para mudar para a gerência de produtos.
Isto as vezes acontece quando o engenheiro realmente participa do processo de descoberta, e ele tem o gostinho de realmente influenciar na definição do produto, e não apenas em ajudar a fazê-lo. E, algumas vezes, este desejo de mudar-se para a gerência de produtos vem da frustração de perceber que não importa quão bom seja o time de engenharia, eles não recebem algo de valor para implementar.
Em qualquer que seja o caso, muitos dos melhores Gerentes de Produto que jamais conheci vieram da engenharia, e neste artigo gostaria de salientar os principais desafios para os engenheiros ao fazerem esta mudança.
Perceba que os engenheiros têm uma grande vantagem, no sentido de que geralmente eles possuem profundo entendimento do que é possível de se fazer. Se eles puderem combinar isto com um profundo conhecimento do usuário e desenvolver alguns novos skills, você tem todos os ingredientes para um ótimo Gerente de Produtos e ótimos produtos podem resultar disso.
Primeiro, e mais importante, você deve perceber que você não se parece nem um pouco com seu usuário final. Se você despender o tempo que precisa com usuários reais, você rapidamente aprenderá isso. Você precisa então se desligar da idéia de que se você gosta do produto e pode descobrir como utilizá-lo, então seus usuários também irão gostar e descobrir como usá-lo.
Em segundo lugar, e ainda relacionado ao descrito acima, você deve desenvolver uma empatia por seus usuários finais e clientes. Você deve perceber que eles não são bobos, mas sim possuem seus próprios trabalhos e suas próprias áreas de conhecimento, e estão geralmente tão ocupados quanto você com as suas próprias vidas, que são, tipicamente, bem diferentes da sua. A maneira mais fácil de conseguir isso é gastar de fato algum tempo face a face com usuários e clientes. Note que isso não significa que eles terão a menor idéia do que eles esperam de seu produto, ou quais devem ser os requisitos reais do produto; é seu trabalho descobrir.
Em terceiro lugar, há uma importante mudança de paradigma que precisa acontecer. Numa organização voltada para a engenharia, especialmente se você lidera ou gerencia engenheiros, você estará sempre trabalhando duro para otimizar a produtividade de seus desenvolvedores. Isto é importante, mas, como Gerente de Produtos, você deve perceber que seu trabalho não é otimizar a produtividade do desenvolvedor, mas sim otimizar a experiência do usuário final. O importante não é identificar a maneira mais rápida de se fazer algo, mas sim ter um produto e experiência do usuário que os usuários irão de fato valorizar e descobrir como usar. Embora isso pareça fácil, garanto que quando você se defrontar com decisões difíceis e trade-offs entre tempo e experiência do usuário, você terá que lutar duro contra sua tendência natural.
Em quarto lugar, voce precisará desenvolver a humildade que é preciso ter quando você mostrar suas idéias para usuários e clientes, e descobrir que, em muitos casos, os usuários não irão responder da maneira que você deseja. Mas você irá descobrir que se ouvir e observar atentamente, você melhorará seu entendimento, e, se continuar tentando, você se tornará melhor rapidamente. Mas isso somente acontecerá se você estiver aberto para aprender, e preparado para suportar a rejeição.
Em quinto, há uma cultura entre os engenheiros que valorize o debate ativo, e, algumas vezes, discussões calorosas e apaixonadas, mas, em muitos casos, as decisões são claras, já que a apenas uma solução é, de maneira objetiva, a melhor – roda mais rápido, escala melhor, é mais tolerante a falhas, mais extensível, etc. O ponto é que decisões técnicas geralmente têm uma clareza e um desfecho que nem sempre existe nas decisões sobre definição de produtos e experiência do usuário. Você poderá descobrir que precisa mudar seu estilo de persuasão e de discussão, e trabalhar mais pesado para defender suas opiniões e decisões.
Finalmente, seu relacionamento com seu antigo time de engenharia pode ser difícil. Eles podem rapidamente começar a lhe desafiar de maneiras com que não faziam antes. Eles duvidarão de sua capacidade de se manter a parte da tecnologia, e ficarão sensíveis com o fato de você falar em nome deles, ou, especialmente, de você comprometer coisas em nome deles. Você irá morder sua língua e deixar o time de engenharia fazer o seu trabalho e participar com você da descoberta. Mas você deve ter preocupações suficientes com a responsabilidade geral sobre o produto para que você não se meta nas decisões técnicas.
Eu encorajo fortemente as organizações para que facilitem este tipo de mudança de carreira. Você irá criar Gerentes de Produto realmente excepcionais. No mínimo, caso o engenheiro resolva voltar para a engenharia, ele terá ganhado um grau de conhecimento dos clientes que lhe ajudará a fazer seu trabalho ainda melhor.
Agradecimentos especiais ao Steve McClelland por seus insights a respeito desta transição. O Steve é um tremendo exemplo de um arquiteto talentoso e valioso se tornando um Gerente de Produtos ainda mais valioso.
